terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

SARA de Bob Dylan - Perdoe a minha desconfiança

 

Bob Dylan já escreveu dezenas de canções de amor ao longo de sua carreira, algumas famosas como "Don't Think Twice, It's All Right", "One of Us Must Know", que adotam uma abordagem mais resignada e filosófica de um relacionamento fracassado. Outros, como "Girl from the North Country" ou "Boots of Spanish Leather", que levam para uma abordagem mais romântica, ainda que distanciada. Há aquelas, mesmo que poucas, como "It Ain't Me" ou "Just Like a Woman", que retratam uma rejeição. Durante seus anos de "retiro doméstico", ele compôs canções de devoção mais diretas, como "The Man in Me", "If Not For You" ou "Lay, Lady Lay". Por conta de sua fama e, consequentemente (ainda que fosse altamente relutante), pelo status de sua celebridade, muitos comentaristas tentaram associar suas canções aos seus relacionamentos mais conhecidos. Então se falamos de "Girl from the North Country", associamos a Echo Helstrom, sua "paixonite" de adolescência; "Boots of Spanish Leather" a sua namorada do início dos anos 60, Suze Rotolo (a mesma que aparece na capa de The Freewheelin' Bob Dylan); e outras inúmeras canções que ele compôs durante os anos de 1964-66 são sobre Joan Baez ou Sara Lownds - com quem ele se casou secretamente em Novembro de 1965. Dylan, que guarda sua vida privada de forma tão cautelosa, nunca gostou com que associassem as suas músicas com significados particulares, muito menos admitir que suas canções foram escritas para pessoas específicas.


(Bob Dylan em ensaio de fotos para a capa do álbum Desire, 1974)



Até no ciclo das canções do álbum Blood on the Tracks, ainda que escritas na época em que seu casamento com a Sara estivesse claramente em apuros, esconde uma mensagem de ambiguidade. Em Chronicles, Dylan afirma (duvidosamente) que aquele álbum não era sobre seu casamento, mas baseado em uma coleção de contos de Anton Tchekhov. Não é de se surpreender que um artista como ele, cujas obras e pronunciamentos públicos são analisadas meticulosamente, tente esconder detalhes reais de sua vida privada. Além disso, canções como "Boots of Spanish Leather", embora possam ter sido "inspiradas" em alguma mulher em particular, não a menciona pelo nome, portanto, podem ser associadas aos ouvintes pelos seus próprios relacionamentos e experiências. No entanto, quando Dylan lançou Sara, a última faixa do álbum Desire, pela primeira (e única) vez ele pareceu não deixar dúvidas aos ouvintes sobre para quem era a música. Todavia, sua afirmação subsequente em uma entrevista de que a música era dirigida à Sara bíblica, esposa do patriarca judeu Abraão, foi bastante não convincente, para dizer o mínimo. A canção foi, talvez por sua natureza intensamente pessoal, nunca mais performada por ele depois de 1976. Além da abordagem jazzística de Barb Jungr, também atraiu alguns covers, muitos deles em versões em Espanhol ou em Italiano.


(Bob e Sara Dylan em Woodstock, 1968 - Foto de Elliot Landy)



Sara é claramente uma canção autobiográfica. É um apelo muito comovente e desesperado, que se concentra na época tenra e feliz de seu relacionamento quando seus filhos eram muito pequenos. Não há nenhuma menção a um conflito matrimonial. Mas a música é tão obviamente sobre a própria vida de Dylan que a falta de subterfúgios ou ambiguidade é impressionante por si só. Desire é um álbum com canções onde cada uma delas são concebidas como pequenos "filmes" de vários gêneros. "Romance in Durango", "One More Cup of Coffee" e "Isis" são todas canções com temáticas de 'Westerns' mexicanos. "Joey" é um filme de máfia piegas. "Hurricane" é uma história corajosa e antirracista de "consciência social", enquanto "Mozambique" e "Black Diamond Bay" são contos cômicos ambientados em lugares "exôticos". Analisando por este contexto, "Sara" pode ser vista como um filme biográfico muito romantizado, onde consiste em diversas cenas estilizadas e felizes de um passado imaginado. A canção é descaradamente nostálgica e sentimental e é claramente pensada para "puxar as cordas do coração" de sua ex-esposa, para que ela o perdoe e volte com ele. 


(Bob Dylan em Rolling Thunder Revue Tour, 1974)



A canção também se difere da maioria dos trabalhos de Dylan por não ser tão complexa de se interpretar. Os seis versos iniciais consistem em cenas em tons de sépia de ocasiões felizes de um passado, apresentados para o ouvinte de forma tão clara e imagético evocativo. Cada verso é seguido por um refrão lamentoso e variável, onde Bob idealiza Sara e implora que ela retorne para ele. Dylan enuncia com bastante clareza, entregando uma performance verdadeiramente apaixonada. Seus solos de gaita são essencialmente eficazes. O tom geral da música, no entanto, é de profunda tristeza. De acordo com o biógrafo de Dylan, Howard Sounes, ele realmente pediu para Sara estar presente na sessão de gravação quando ele lançou a música pela primeira vez. O casal havia se reunido e Sara havia se tornado parte da turnê Rolling Thunder, interpretando o papel principal de Clara em Renaldo and Clara, o filme experimental de Dylan da turnê. Mas a reconciliação não durou e um divórcio confuso se seguiu. Apesar dos apelos sinceros de Bob para Sara, o clima predominante da música sugere que, no fundo, ele já sabia que seu casamento estava condenado. Quaisquer transgressões que ele cometeu (que certamente, na vida real, incluía seus casos com outras mulheres) nunca foram descritas em detalhes. A canção tem um ar de tragédia. O fato do Dylan, sempre bom em "deixar as coisas vagas" (assim como afirma Joan Baez em Diamonds and Rust), ter realmente exposto elementos da sua vida real acrescenta à pungência da música. Seu tom de triste pesar e arrependimento torna-a um verdadeiro arrancador de lágrimas. Mas ele nem sempre deixa claro que ele se considera responsável pelos problemas matrimoniais. 



(Bob e Sara Dylan chegando na Inglaterra, 1969)



A canção se inicia com uma simples, mas evocativa, descrição de uma memória emocional. Dylan está deitado em uma duna, numa época em que ...as crianças eram pequenas e brincavam na praia... Sara aparece por de trás deles ...Você sempre esteve tão perto... ele canta ...e ainda ao alcance... No primeiro refrão ele pergunta a ela ...O que foi que fez você mudar a sua mente?... Esta, é claro, uma pergunta retórica, cuja resposta ele não fornece. Em referência ao interesse de Sara ao Zen Budismo, ao qual Dylan já havia prestado homenagem anteriormente em "Love Minus Zero/ No Limit", ele a chama de ...tão fácil de olhar, tão difícil de definir... Dylan então recorre à sua memória de seus filhos brincando na praia. As descrições são simples, mas muito emotivas ...Eu ainda os vejo brincando com seus baldes na areia/ Eles correm para a água, para encher seus baldes...  Então ele dá um zoom para um close de cena ...Eu ainda vejo as conchas caindo de suas mãos/ Enquanto eles seguem um ao outro de volta para a colina... A imagem das conchas que as crianças recolheram caindo de volta para a areia é realmente comovente. Ela pode ser interpretada como se as crianças já estivessem em um processo de perder algo, mas - em sua inocência - não tivessem consciência de que isso estava acontecendo. Dylan tenta distrai Sara dessa imagem amedrontadora repetindo seu nome várias vezes no refrão, idealizando-a como ...doce anjo virgem... e como uma ...joia radiante, esposa mística... Mas, inevitavelmente, é a imagem ressonante de seus filhos brincando, com a associação da felicidade de sua família que agora está desfeita, que fica no imaginário do ouvinte - e talvez no de Sara - mais presente.


(Bob Dylan em estúdio na gravação de Buckets of Rain de Blood On The Tracks, 1975)



No terceiro verso, Dylan continua a produzir mais flashbacks evocativos, mostrando cenas de felicidade conjugal. Mas agora as imagens do passado vêm espessas e rápidas e estão ainda mais fragmentadas, enquanto ele parece buscar em desespero na sua memória ...Dormindo na floresta perto de uma fogueira à noite... é seguido por ...Bebendo rum branco em um bar em Portugal... então ele retorna com mais imagens sentimentais das crianças, que estão ...brincando de pular carneirinhos e escutando sobre a Branca de Neve... antes de cortar para uma "foto" de Sara ...no mercado em Savannah-la-Mar (um resort na Jamaica). Nas apresentações ao vivo da música, os versos dois a cinco são trocados para ...Você lutou pela minha alma... ele canta  ...e enfrentou as adversidades... E isto é seguido por uma rara auto depreciação ... eu era muito jovem para saber que você estava fazendo o certo... ele diz a ela antes de elogiá-la com termos inequívocos ...Mas você fez isso com a força digna dos deuses... Os novos versos podem não ter o Pathos dos que vieram antes, mas ele suprem um apresso prático para Sara - em particular, por salvá-lo de seu estilo de vida autodestrutivo - o qual antes esses elogios estavam ausentes. A referência de "deuses" dá a Sara poderes divinos, um tema que continuará ao longo da música. O próximo refrão, com sentimentos bastantes prosaicos de ...Sara, Sara, está tudo tão claro que jamais me esqueceria/ Sara, Sara, te amar é algo que eu jamais me arrependeria... é uma faca de dois gumes. Ele admite que ele nunca se arrependeria de amá-la, mas deixa o ouvinte imaginando sobre tantas outras coisas que não são ditas aqui e quais seriam esses "arrependimentos" que ele é incapaz de admitir.


(Contra capa do álbum Desire)



O quarto verso acaba sendo o mais chocante para qualquer fã do Dylan. Na primeira linha ...Eu ainda posso ouvir o som daqueles sinos metodistas... que é algo altamente evocativo, embora um tanto extraordinário. Então, ele segue dizendo ...eu tinha encontrado a cura, e tinha acabado de passar por tudo isso... Aqui Dylan aparece (pelo menos superficialmente) estar sendo demasiado honesto sobre a sua vida pessoal. O verso sugere que ele estava com vício em drogas, a não ser que ele esteja se referindo a um outro tipo de doença desconhecida (possivelmente alguma doença sexualmente transmissível). Mas o impacto disso, de alguma forma, está apagado pela próxima revelação ...Acordado por dias no Chelsea Hotel/ Escrevendo "Sad Eyed Lady of the Lowlands" para você... Aqui, pela primeira e única vez, ele faz referência a uma de suas músicas - e uma música de grande hit em sua carreira. Tudo isso, no entanto, pode ser um mero subterfúgio, de acordo com os músicos que participaram do álbum Blonde On Blonde, Sad Eyed Lady foi composta em estúdio enquanto ele trabalhava no álbum. E embora a famosa e épica balada contenha diversas referências conhecidas sobre Sara (Lowlands pode ser um jogo de palavras para Lownds, que junto com 'magazine husband' - *Marido da revista - faz referência a Hans Lownds, o primeiro marido de Sara que era jornalista), é discutível se a música é inteira "sobre" ela ou se a *Mulher de Olhos-Tristes é uma composição "sobre" todas as amantes de Dylan (ou até pode se referir ao próprio Dylan).


(Capa do álbum Desire)



Nada disso pode ser terrivelmente surpreendente para aqueles que acompanham o trabalho de Dylan. É esperado que ele apresente uma versão colorida e muito imaginativa de seu passado, assim como fez ao aparecer na cena folk, alegando ter saído de casa quando era adolescente e passando vários anos trabalhando em feiras de circos itinerantes. Em Chronicles, muitas dessas memórias são relembradas e parecem ser, no mínimo, exageradas. Mas ao fazer tal declaração sobre uma de suas músicas tão lendárias, Dylan aparenta estar "deixando uma parte de si" no verso ao revelar publicamente um detalhe tão específico, que normalmente ele guardaria a sete chaves para si mesmo. É, certamente, um detalhe impressionante para seus fãs, mesmo se a própria Sara acreditou ou não. No refrão que se segue, Dylan a tranquiliza dizendo que ...onde quer que viajamos, nunca estaremos separados... sugerindo que ele está se preparando para um futuro no qual eles realmente estarão separados. 


(A praia de Lilly Pond Lane)



Dylan continua o seu processo de mitologização ...Como eu te conheci?... Ele pergunta. Primeiro ele afirma que ...eu não sei... Mas é só mais uma pergunta retórica. Ele então declara orgulhosamente ...Um mensageiro enviado a mim em uma tempestade tropical... o que parece estar se referindo a Mercúrio, o Mensageiro Romano. Seguindo por outra imagem idealizada de Sara ...Você estava lá no inverno, o luar brilhava sob a neve/ E em Lilly Pond Lane, quando o clima se amornava... Lilly Pond Lane é uma praia localizada em East Hampton, em Long Island, no estado de Nova Iorque. Presumivelmente, esta é a localização da praia que aparece na música. Dylan agora parece estar sugerindo que a união deles foi algum tipo de processo místico, decretado pelos "deuses". Isso é amplificado pela bonita aliteratura da primeira linha do próximo refrão ...Sara, Sara/ Esfinge de escorpião em um vestido de algodão... outro tributo a sua mística e, aparentemente, confusa personalidade. Então, tendo construído um "status divino" para a sua esposa, ele prossegue para entregar, pela primeira vez, algum tipo de confissão de sua própria responsabilidade pelo o que aconteceu ...você deve me perdoar por minha desconfiança... 


(Uma Ninfa mirando seu arco para um jovem - Kauffman, Angelika - 1780)



Após uma pausa pungente de um solo de gaita, o verso final começa com o elegíaco de partir corações ...Agora a praia está deserta, exceto por algumas algas/ E um pedaço de um velho navio que jaz na costa... Tanto a praia vazia e o navio quebrado parecem simbolizar o estado do casamento deles. Depois ele faz mais elogios à Sara ...Você sempre respondeu quando precisei de ajuda/ Você me deu um mapa e uma chave para sua porta...  Sara é ainda mais "deificada" como uma ...ninfa glamorosa com uma flecha e um arco... O que parece ser uma referência a uma famosa pintura da artista suíça do século XVIII Angelika Kauffman, na qual uma ninfa mira seu arco em um pastor usando uma das flechas do Cupido. Dylan claramente espera que Sara magicamente revitalize seu relacionamento atirando uma dessas "flechas do amor".


(Bob Dylan performando em Houston, Texas, durante a turnê do Rolling Thunder Revue, Maio de 1976)


No entanto, parece improvável que isso realmente aconteça. Apesar dos apelos de Dylan, a magia em seu relacionamento já havia acabado. A música, que conclui com uma melodia de gaita bastante lamentosa, é trágica ao invés de edificante. Há uma forte sensação de que Dylan não está realmente lidando com os problemas do casamento. Mas na verdade, ele os está evitando ao não admitir nenhuma culpabilidade de sua parte, com exceção de sua própria "indignidade"; cuja confissão é corajosa, mas vaga. Os elementos trágicos que ocorreram dentro de seu casamento parecem não ter sido ditos. Infelizmente, a sua apaixonante e metafísica poesia e a sua súplica por perdão não desejarão que os problemas não existam mais. As canções de Dylan são frequentemente mal compreendidas por aqueles que não entendem o fato de que muito do que ele canta é expresso pela voz de um narrador, que é um personagem fictício. Então, os sentimentos expressos em suas canções não são necessariamente os do próprio Dylan. Em Sara, uma música que parece, a princípio - por uma vez, deixar de lado essas "máscaras", finalmente parece que ele ainda está cantando pela voz do narrador - neste caso, um personagem fictício chamado "Bob Dylan", que aqui se dirige à mulher que ele injustiçou como uma "deusa". Ao fazer isso, ele cria a sensação de desejo desesperado misturado com nostalgia chorosa, dando para a canção um grande poder emocional.



(Bob Dylan tocando na turnê Rolling Thunder Revue,1976)


Texto traduzido por: Cris del Mar
Texto de: Chris Gregory
Fonte: Sara - Forgive me my unworthiness


quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Pensamentos Livres #19

 



E pensar no nasce e morre de todo dia


28/08/2023



*Poesia Sem Nome #04*

 

Tenho até hoje
a marca que você deixou em meu corpo

           É trágico pensar
                        que algo tão bom
                                     se torna efêmero

Mas nas entrelinhas da vida
segue assim

A maré traz pessoas tão boas
Que mesmo em um curto espaço de tempo

Marcam

E fazem valer a próxima jornada


- 12/05/2024

Insight sobre a minha Felicidade Plena


Eu levo comigo essa constante sensação de que nunca vou ser feliz de verdade. Pelo menos é o que eu acredito. Eu vi uma entrevista onde Maria Bethânia dizia que "não existe felicidade, mas sim, alegria e coragem." E acho que essas palavras cabem muito bem no que eu vou dizer agora. Primeiramente, queria contextualizar para o leitor que o conceito de felicidade, antes de mais nada, foi-me apresentado como um tipo de produto - ela sempre foi entregue e vendida desse jeito. Produto esse feito pra vender coisas, uma ferramenta do sistema econômico. Entendendo isto, concluo que meu subconsciente às vezes interpreta a felicidade como uma recompensa capitalista. Segundo, gostaria de afirmar que me identifiquei muito com a frase de Bethânia, pois com ela compreendi que a felicidade e a alegria são coisas completamente diferentes e gostaria de ressaltar aqui tal diferença. Felicidade, da forma como ela é vendida apresentada, faz parecer que ela seja duradoura, eterna. Entretanto, demorei tempo demais nessa vida pra entender que nada é duradouro, mas que tudo é passageiro. Já a alegria está mais para uma sensação momentânea, onde a própria palavra, gramaticalmente falando, transmite isso: "Você está alegre." E eu sinto uma onda, uma correnteza, quando eu digo: "Alegria". Como se a palavra fosse uma transmissão de rádio, pairando pelo ar e entrando pelo cérebro.

Entretanto, acho irônico debater tudo isso sabendo que em vários momentos da minha vida eu acreditei que já fui feliz, verdadeiramente feliz. Eu senti a felicidade me invadindo de forma tão abrupta que deixei-me convencer que ela perduraria para todo o sempre. Costumam muito me perguntar: "Você é feliz em sua vida?" E às vezes não sei o que responder, uma mistura de sim e não. Tem momentos em que sou feliz de verdade e tem momentos que desejo a própria morte, como ser queimado vivo. E quando Bethânia ressalta sobre a sua alegria e sobre a sua coragem, entendo o significado de duas coisas tão distintas. É Alegria pra sentir momentos bons e recompensadores e Coragem para não se deixar levar pelos pensamentos melancólicos.

Eu sinto que a última vez que me senti feliz assim - ou alegre - foi com uma pessoa que marcou muito a minha vida. Mesmo que hoje eu tenha outro olhar sobre ela, ainda sou muito grato pela caminhada que tivemos juntos. Me faz pensar sobre a felicidade e a forma como ela é - ou acaba se tornando - uma coisa ilusória. Reflito essa ideia de nunca conseguir ser feliz plenamente, porque aquilo que eu busco e almejo pra minha vida - e isso desde de pequeno, onde cresci com essa ideia tradicionalista enfiada na cabeça de que é necessário se ter uma relação com alguém, ter algo, uma conexão e toda essa história, casar e blá, blá, blá, ter um "felizes para sempre" (e no fundo fazer parecer ser o que mais desejo, no sentido romântico) - está cada vez mais difícil, pois as pessoas estão mais e mais afastadas uma das outras e querendo ainda mais distância dessa ideia antiquada e conservadora. Em contra partida, vejo toda uma dualidade dentro de mim, porque sinto que aquilo que eu estou predestinado vai para um lado oposto disso, dessa vontade brega que está pregada em mim. E essa dicotomia acaba me levando para lugares distantes, me causando uma certa frustração e um vazio ao pensar que eu nunca vou encontrar essa tal felicidade plena com alguém. E é um pouco irritante saber que nunca vou ser feliz de verdade, ao menos nesse sentido.

Às vezes sinto que prevejo o meu futuro. Tenho certas intuições sobre o que vai me acontecer - o que pode me causar uma certa dificuldade para escapar de certas situações. "Às vezes é mais fácil aceitar, por mais que doa." Eu sinto que minha vida inteira foi de solidão e que ela ainda vai ser meio cheia disso. Quem sabe com alguma falsa admiração ao meu redor? Não sei. Sinto que não vou conseguir isso que eu almejo nunca, por mais que eu tente. Ainda mais sabendo que a felicidade é um mito! Talvez seja só ilusão e pretensão minha acreditar que dá pra ser feliz de fato nessa vida, afinal, já se passaram tantos momentos e tentativas que acabei desacreditando. E foi justamente na minha última experiência em que desacreditei de vez de tudo isso. Desse "achismo", dessa sensação de perenidade. É quase que divino. Como se o universo me dissesse para focar em coisas mais importantes do que a minha própria felicidade.

E talvez esse seja meu maior vazio. Entender que sou predestinado pra outras coisas e não pra ser feliz de fato. E talvez essa seja a minha maior tragédia. Entender que sou predestinado a solidão e não ao amor, logo eu, que tenho tanto para dar em troca. Por isso sinto que eu mereço a solidão, porque ela sempre me acompanhou desde que nasci nesse corpo. Ela sempre esteve ali, ao meu lado. Eu não sinto que mereço algo além disso. Talvez essa seja a parte mais difícil, aceitar que, no fim, só existe eu mesmo e todo o resto, toda essa fantasia, essa historinha, essa tradição, conservadorismo, ferramenta capitalista, chame do que for, tudo isso, está longe de se tornar real.

Hoje me considero uma pessoa alegre, mas que não é feliz. Sou ciente de que felicidade tem haver com plenitude e alegria com momento e com isso, estou ciente de que não vou atingir essa plenitude tão cedo em vida. Para isso, pretendo aproveitar cada momento dela tentando achar essa felicidade. Caso contrário, irei passar o resto da minha vida injuriado, sentindo esse vazio - que alastra. Por tanto, preciso ir e encarar essa busca de me encontrar. Aceitar que a felicidade vem de dentro de mim e só de mim. E farei o meio dessa tormenta a minha arte. Pois nela destilarei as minhas próprias dores e conflitos e as transformarei em beleza. Me alegro em dizer que já fui feliz algumas vezes. Prefiro deixar com que a felicidade venha no tempo dela, como um borboleta indo de encontro ao jardim.



- 10 de março de 2024.

quarta-feira, 24 de julho de 2024

De Pai para Filho

 


Numa certa noite de dezembro, um belo reencontro iria acontecer. Um filho que há tempos não via seu velho pai marcara de se encontrar em um banco de uma praça. O mesmo que estavam acostumados anos antes, em sua infância.

Ambos só haviam se comunicados por cartas, pois naquela época era a forma mais comum de conversar a longas distâncias. Como o velho pai ainda morava na mesma casa, o filho não teve dificuldades quando ousou um contato.

Agora, ambos se encontram nesta estranha noite. Eles se avistam e caminham em direção ao banco. Ao se aproximar, um forte abraço reconecta esse laço tão vivo e forte como antes era.

O pai, sábio em questão, percebera o semblante de seu filho. Não parecia tão feliz ao vê-lo. Estava cabisbaixo, magro e com olheiras gigantes.

- O que foi? Não está feliz de reencontrar seu velho pai?

- Não é isso, você não entenderia - respondeu o filho aflito. - Estou feliz, estou sim. Mas...

- O que? Me diga, vamos.

- Há dias que não durmo, não consigo mais. Parece que meu mundo vai acabar. Eu não consigo parar em lugar algum, não sei mais o que fazer... - disse o filho angustiado. - São os meus erros, eles me perseguem. As coisas andam tão estranhas ultimamente, não sei se o senhor me entenderia. 

- Vocês jovens tem essa mania. Vivem correndo sem pensar no dia de amanhã. Nem acreditam mais no dia de amanhã e ainda nos culpam de toda desgraça que anda acontecendo ao redor do mundo. Não existe o fim do mundo, sempre foi o fim do mundo.

- Mas você há de concordar, meu pai, que nuvens negras pairam pelo céu e que recentemente há de morar em nossas cabeças.

- Elas sempre moraram meu filho, sempre moraram... - Ele suspira enquanto olha para um céu meio nublado e meio estrelado. Percebe que a Lua se esconde por de trás das cinzas nuvens no céu. - Você está vivendo isso agora, mas confie em seu velho pai. Sei que parece difícil, porém tudo isso vai passar um dia. A vida realmente não é nada fácil. Você deve aprender a lidar com essas coisas. Traga um guarda-chuva toda vez que sentir que irá chover. 

O filho sorri, concordando com o que seu pai havia dito. Os dois se entreolham por um instante. Até que a Lua resolve se desesconder. "Olha quem resolveu aparecer" pensou o filho. 

Os dois ficaram ali sentados fitando aquela grande bola branca, pensavam em tudo sem dizer nada. Deixando que o silêncio os corrompessem tornando-os uníssonos com o presente instante. 

Sabem caros leitores, não foi uma vida fácil para o pai. Este que tentou dar de tudo para seu filho, que batalhou e sangrou por ele, até que chegou o momento em que teve que deixá-lo ir. "Eles sempre voltam, os filhos sempre retornam para o colo de seus pais." Pensava o velho. E anos se passaram até que pudessem chegar neste momento, neste reencontro. "Não é a mesma coisa que as cartas, mas existe um penar em meu coração ao saber de tudo o que meu filho passou. E existe uma alegria ao saber que ele está vivendo, tomando seu próprio rumo, enfrentando suas próprias batalhas." Refletiu enquanto sorria com o canto da boca.

E agora que o filho reencontra seu pai, pede o perdão de seu sumiço. Mais do que isso, ele pede ajuda. Pois agora, o mesmo passa por problemas. Grandes problemas. Sua cabeça gira em perguntas mas não encontra nenhuma resposta. Ele anda confuso e a única alternativa foi buscar por aquele quem mais confia. O filho acabara de sofrer uma triste história de amor, onde muitos, inclusive seu pai, já vivenciaram. Ele havia se entregado de corpo e alma, mas quando tudo acabou, seu mundo desabou junto.

- Eu ainda não acredito no que aconteceu comigo. - disse o filho cortando o silêncio que ambos haviam criado. - Eu era uma pessoa que acreditava no amor, era sim. Sabe quando você encontra alguém e acredita plenamente que é ela a pessoa? Eu pensava que iríamos casar, ficar velhinhos juntos, toda essa baboseira romântica. Mas e agora? Não resta nada. Sonhos antigos jogados ao vento. Me sinto enganado, desolado. Pai, não sei mais o que fazer! Fiquei entregue nesse sentimento, da mesma forma que entreguei meu amor a ela. Estou imerso em algo frio e escuro. Não consigo mais dormir porque as paredes me engolem. Não sei como prosseguir...

O velho olha atônito para seu filho que chorava incondicionalmente. Não consegue conceber todas as palavras que acabara de escutar. Um sentimento profundo o assombrara, lembranças de uma outra vida que nem lembrava que existia. A verdade é que seu pai compadecia de suas dores, mas não gostaria que seu amado filho caísse na tentação e provasse dos mesmos erros que cometera quando era jovem e estúpido. Então, tomado por uma fúria que nem ele mesmo sabera de onde vinha, interrompe as queixas de seu filho.

- Você pare já com isso! Não é porque você se sente perdido que deve desistir de tudo! Você me ouviu!? - disse apreensivo e apontando dedos. - Não há razão para parar de tentar, eu estou aqui pra te ajudar a prosseguir. A vida é sim uma jornada muito árdua e você deve aprender com os erros. Mas não há motivos para desistir do amor. 

- Eu só não quero deixá-la partir.

- Mas deixá-la partir você deve!

- Mas dói em vê-la ir.

- E aposto que também doeria se ainda estivesse com ela. Sabe meu filho, certas coisas acontecem pra te ensinar. 

- Ensinar!? - disse enraivecido. - Eu não entraria nessa se soubesse que terminaria assim.

- Mas ninguém sabe onde as coisas vão parar. E além do mais, tudo isso passa. Sua vida não vai parar, você ainda vai ver.

- Eu só quero parar de pensar nela.

- Não é tão simples assim, fingir que ela nunca existiu não vai tirar toda essa dor dentro de você. Se você ainda pensa nela, significa que ela ainda é importante pra você, afinal, vocês dividiram uma vida juntos. Vai dizer que não a ama.

- Não, você tem razão. Eu ainda a amo... Te-tenho saudades dela.- disse gaguejando.

- Então, toda vez que pensar nela seja grato por tudo, trate ela com carinho e não com ódio. Sempre que lembrá-la deseje seu bem e assim você será capaz de seguir e ser feliz. Deixe-a ir meu filho. Tome o seu tempo, mas deixe-a ir. Quem nos ama de verdade, sempre retorna. Afinal, cá estamos, não é mesmo?

- É mesmo. - concordou o filho. Os dois sorriram um para o outro. O filho limpou suas lágrimas e retornou a olhar para a Lua. Tomou um pouco de ar e agora tentava respirar mais devagar. Seu pai agora admirava a Lua junto a ele. 

- Sabe meu filho... - uma breve pausa pra dizer - A maior humildade que você deve ter na sua vida é de perceber suas fraquezas. Não somos invencíveis. Até o mais forte uma hora cai. É preciso abaixar a cabeça e aceitar que perdeu. Só que muitos se deixam abalar por isso. A derrota não é o fim, mas o começo. Um poeta uma vez disse:

"Foi na presença da morte que aprendi a me reerguer.

Foi me perdoando que aprendi a prosseguir.

Foi na escuridão que aprendi o valor da luz,

Pois não existe cima sem baixo,

Não existe amor sem dor."

- Então o que isso quer dizer? - disse o filho reflexivo.

- Que o perdão é a chave de tudo. Certas coisas são inevitáveis de se escapar e se você aprende a contorná-las a felicidade aparece. Perdoa a ti mesmo e verás um novo mundo ao seu redor. Deixe-a ir meu filho, eu sei que dói, mas tente se perdoar.

- Eu vou tentar... Farei tudo o que me disse e seguirei todos os conselhos que ela uma vez sussurrara em meus ouvidos. Eu sei que de certa forma ela queria o meu bem, mas não farei isso por ela, farei por mim! Pois eu sei que mereço algo além dessa escuridão.

- Todos merecemos, meu filho. Todos merecemos.

As nuvens que antes pairavam, agora se esvaem. E ambos admiram a brilhante Lua flutuar no céu.

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Triste Domingo

 

A melancolia do Domingo me pegou mais uma vez.

Tomado por esse vazio irracional,

Tento me lembrar da última vez que fiquei assim.

Esse sentimento que alastra e traz consigo a angústia.

Solidão.

Quem realmente está ao meu lado?

Revisito em minha cabeça os acontecimentos dos últimos anos

E são poucos aqueles que permaneceram comigo.

Pra onde a vida há de me levar?

Solidão.

Me arrebata a mente esse sentimento nostálgico,

Sinto em minhas veias as memórias do passado.

Ah, e como dói!


Escuto frequentemente que pareço ser mais novo do que sou.

Que tenho o rosto de alguém de 21 anos.

Mas agora eu aos meus 26, crio essa sensação de que nunca envelheço ou que nunca vou crescer.

Mas quem realmente cresce?

Não somos todas crianças fingindo ser algo que não somos pra agradar alguém que fingimos querer?

A vida é uma jornada, não destinos.

E essa jornada é um eterno aprendizado.


Revisito as memórias do passado e me vem essa sensação 

De que por mais eu tenha vivido,

Ainda assim, não me sinto crescido. 

Quando será o meu ápice?

E minha queda?


Sinto falta dos velhos tempos, mas sei que não vão voltar mais. 

Eu só tenho o agora.

Sobrevivemos a uma pandemia que dizimou muitas vidas.

A custo de quê?

Será que todos superaram?

Difícil dizer.


São tempos estranhos esses que vivemos.

Estão sempre anunciando o fim do mundo pela TV.

Eu olho pra trás e sinto que depois da Covid, nada será como antes. 

E que antes disso era realmente uma outra vida.

Será que vivo numa simulação do meu próprio ser?

Não importa.

Porque já aceitei que nada será como antes.

E o que me resta é somente o agora.

(Até o futuro nos foi tirado!)


E onde havia grandes pastos verdejantes

Toma o lugar um cinza,

Quente

Como lava.

O próprio inferno veio nos abençoar.

Mas é assim a vida.

Cíclico.

O poder de criar também é o mesmo de destruir.

Como no hinduísmo,

Um amigo meu me explicou uma vez...

São três entidades, a que cria, a que conserva e a que destrói.

É o equilíbrio.

Pra uma nova história nascer,

Outra deve perecer.


Pessoas devem ir embora 

Pra que outras tomem o lugar

E povoem com a alegria da vida.


Talvez seja essa a dificuldade da solidão.

De entender que há momentos que nenhum e nem outro acontece, mas só a existência de nós mesmos.


Prefiro não me alongar.

Mas ao invés de lamento,

Gratidão.

Que hoje seja o fim e começo de um ciclo.

Afinal, devo agradecer por minha semana,

Mas também devo agradecer pela próxima.

Que nada seja o mesmo 

E que a maré da mudança me traga águas rasas e cristalinas.

Que eu possa contemplar em seu sorriso

O início e o fim do universo.