Sucesso
Texto de Cris del Mar.
21 de julho de 2020
Sucesso
Texto de Cris del Mar.
21 de julho de 2020
O comentário de Dylan em estar deslocado do mundo, mesmo estando junto a ele - aqui, mas não aqui - se espalha múltiplas vezes em suas canções. Nunca esteve lá desde o começo - Times they are a-changing lançou uma certeza que corria em várias outras canções antigas.
O problema com Times, no entanto, era que a canção mais famosa de Dylan estava fora de sincronia com o resto do álbum, que dizia claramente que os tempos não estavam mudando e que, por exemplo, os horrores da pobreza e exploração rural, ou do racismo e da injustiça, estavam preso na sociedade e nas políticas americanas.
Então que coisas mudaram? Bem, apenas porque o cantor que antes costumava a se importar, mas agora nem se dá o trabalho de fazer isso.
De fato, foi isso o que Dylan disse abertamente quando ele ganhou o seu Oscar - ele a chamou de uma música que "não anda com rodeios nem faz vista grossa para a natureza humana."
Claro que musicalmente, a partir do desenvolvimento de seu imagético surreal que chegou com o desenvolvimento da instrumentação voltada para o rock no trabalho de Dylan, é possível encontrar mudanças. Mas em termos de natureza humana, do momento em que "Hollies Brown puxa seu gatilho" e "a noite começa a pregar peças quando está tentando ficar quieto" tudo começa a se desmoronar para sempre. Bob tem seus momentos de felicidade em momentos como no interlúdio Country Pie ou em momentos parecidos, mas a sensação que ele deixa em suas obras refletem em como ele é, às vezes se importando e às vezes não.
Nessas canções, existe uma certa frequência em que o ouvinte se pergunta "O que está acontecendo?" Seja dentro ou fora da música. Mas, se há uma canção onde mais se encontra essa indagação é em "Things Have Changed".
Um homem preocupado
Com uma mente preocupada
Ninguém na minha frente
E ninguém atrás
O verso inicial é o suficiente para guiar o destino da canção, ou melhor, que não se faz ideia de qual direção ela poderá ir. E quando menos se espera, o ouvinte percebe que o cantor está falando sobre uma mulher "bebendo champanhe, com sua pele branca e olhos de assassino."
"Olhos de assassino? O que seriam olhos de assassinos?" Não fica bem claro, já que ela vem de outro mundo. Aqui, o deslocamento é completo. A única certeza é de que há um olhar e pronto.
De pé na forca
Com a cabeça em uma corda
A qualquer momento
Espero que o inferno se espalhe
Neste mundo, as pessoas vêm e vão, falando, mas sem dizer nada. O passado ainda não aconteceu, o futuro foi ontem. Eu sou você, você é ele e ele não é. T.S. Elliot chuta seu verso para o subconsciente de Dylan mais uma vez:
Ruas que seguem como um argumento tedioso
De intenção insidiosa
Para levá-lo a uma pergunta esmagadora
Oh, não pergunte "O que é?"
Vamos fazer nossa visita
Na sala as mulheres vêm e vão
Falando de Michelangelo.
A névoa amarela que esfrega suas costas nas vidraças,
A fumaça amarela que esfrega seu focinho nas vidraças,
Lambe suas línguas nos cantos da noite,
Permanece sobre as poças que ficaram nos ralos
É claro que ele deveria estar em Hollywood, fazendo aulas de dança, vestindo-se de Drag. Ele deveria, pois aqui já não resta nada para se provar. O problema é que em todo lugar, não há nada a se provar, a névoa amarela envolve tudo.
Sua voz está cansada e o acompanhamento controlado e bem ensaiado, o pulso moderado, não tem nenhuma tentativa de se tornar uma performance virtuosa, não há nenhuma mudança inesperada de acordes, porque não são os músicos individuais que fazem o ponto - o ponto é a situação, aquele mundo que deu errado. Naquele mundo, é possível se apegar a constância da música, porque não há outra constância.
Sinto como se estivesse me apaixonando
Pela primeira mulher que me aparecer
Colocando-a em um carrinho de mão
E a empurrando pela rua
(Onde mais se colocaria uma mulher de olhos assassinos enquanto uma névoa amarela se enrola ao redor e as classes cultas falam sem dizer nada?)
E quando o ouvinte já se acostuma com a estranheza e começa a criar clareza com o que Dylan diz, ele subitamente...
Sr. Jinx e Sra. Lucy pularam no lago
Eu não estou tão ansioso para cometer um erro
Sr. Jinx era um personagem do desenho Pixie e Dixie. Hoje, o Sr. Jinx está disponível em diversos merchandisings. Talvez fosse um momento passageiro do personagem de desenho animado, ou talvez seja uma reflexão, para mostrar que ele também não é real. Exceto que não há distinção entre real e irreal.
E a música continua, usando sua rotina de três acordes com acompanhamento simples. O cantor não fica animado. Existe um continuum, mas continua não fazendo nenhum sentido.
Link para a música Things Have Changed.
Link para o momento em que Bob Dylan ganha um Oscar.
Fonte: Things Have Changed: The meanings behind the Bob Dylan's song
Traduzido por: Cris del Mar
Bob Dylan já escreveu dezenas de canções de amor ao longo de sua carreira, algumas famosas como "Don't Think Twice, It's All Right", "One of Us Must Know", que adotam uma abordagem mais resignada e filosófica de um relacionamento fracassado. Outros, como "Girl from the North Country" ou "Boots of Spanish Leather", que levam para uma abordagem mais romântica, ainda que distanciada. Há aquelas, mesmo que poucas, como "It Ain't Me" ou "Just Like a Woman", que retratam uma rejeição. Durante seus anos de "retiro doméstico", ele compôs canções de devoção mais diretas, como "The Man in Me", "If Not For You" ou "Lay, Lady Lay". Por conta de sua fama e, consequentemente (ainda que fosse altamente relutante), pelo status de sua celebridade, muitos comentaristas tentaram associar suas canções aos seus relacionamentos mais conhecidos. Então se falamos de "Girl from the North Country", associamos a Echo Helstrom, sua "paixonite" de adolescência; "Boots of Spanish Leather" a sua namorada do início dos anos 60, Suze Rotolo (a mesma que aparece na capa de The Freewheelin' Bob Dylan); e outras inúmeras canções que ele compôs durante os anos de 1964-66 são sobre Joan Baez ou Sara Lownds - com quem ele se casou secretamente em Novembro de 1965. Dylan, que guarda sua vida privada de forma tão cautelosa, nunca gostou com que associassem as suas músicas com significados particulares, muito menos admitir que suas canções foram escritas para pessoas específicas.

Eu queria que você fizesse um exercício muito simples. Tudo que precisa fazer, se estiver confortável com isso, é ficar diante de um espelho. Tente se despir - se possível - e olhe fixamente para a imagem refletida na sua frente. É um exercício de autocrítica ou autoaceitação, não sei ao certo. Mas a ideia é ficar se encarando sem pensar em nada. Você apenas se olha e encara a imagem à sua frente sem pensar em nada, sem ter opinião do que você está vendo. Somente observe-se; Se veja; Atente-se em como o olho se mexe pra lá e pra cá, ouça sua respiração, observe os músculos se contraindo para buscar o ar e expulsá-lo. Atente-se em cada movimento, cada formato, cada cor que a luz também reflete, cada textura, sombreado, tudo. A imagem como um todo, como ela realmente é. Se você quiser, também pode se encostar, se sentir com esse toque. Entender essas formas e ângulos.
A partir de então, quando você começa aceitar o que está vendo, quando assume: “Tá, isso aqui é real!” Comece a usar palavras para verbalizar tudo isso. Pode usar palavras feias e pejorativas, ou podem ser palavras neutras, palavras qualitativas ou positivas, mas apenas palavras. E tente descrever o que você vê. Descreva toda essa composição usando os adjetivos que citei - formatos, ângulos, etc. -, toda essa coloração que surge na sua frente.
A maioria das pessoas quando veem um poeta pensam logo em um ser amoroso, lúdico, que vive com a cabeça entre as nuvens. E de fato estamos. Mas há também de lembrar dos outros poetas. Aqueles que enxergam além da verdade. A poesia de guerrilha. Que apontam o dedo na cara e ainda discute. Aqueles que olham pra vida e ainda mais. Muito mais. Que enxergam a beleza na própria melancolia e tornam o caos do mundo mais belo. Devem lembrar que existe, não o poeta, mas a própria poesia. Que habita nele e em nós. Que habita em qualquer lugar. E o papel dele é informar, informar que existe essa beleza na vida. Informar que não só o amor rima com dor, mas quiçá o pavor. O pavor de viver, de se arrastar a cada dia que passa. Levantar-se e correr pra mais uma rotina de labuta. Esse poeta não descansa, pois ele respira e destila palavras. Tenta capturá-las como uma criança que tenta estourar bolhas de sabão. Esse tipo de poeta guerreia consigo mesmo. “Senta-te, velho sarnento! E vá escrever.” É isso que querem faça. Mas a arte vem de forma espontânea e se ele não se alimentar não poderá criá-la. Seja de pão ou seja de álcool, o poeta arranja uma forma de sobreviver. Como Rimbaud saindo do próprio inferno. Sua luta diária não se limita ao horizonte. Vai para todos nós. Que possamos enxergar a vida de forma mais leve e bela. E quem sabe pegar emprestado os teus olhos e ver, nem que seja por um curto período de tempo, o mundo com uma perspectiva completamente diferente.