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terça-feira, 4 de agosto de 2026

Reflexão sobre o sucesso

 Sucesso



Honestamente, foi somente hoje que percebi que ao longo de minha vida tive diversas tentativas pífias de atingir o sucesso. Onde o qual estive constatemente atrelado a perseguir e hipnotizado com a ideia de se conquistar. Mas afinal, o que seria o Sucesso? Por que temos essa vontade avassaladora de querer atingi-lo? Vontade essa que nos domina e tenta nos transmitir uma mensagem, ou melhor dizendo, necessidade de preenchimento, de paz e muitas vezes de objetivo; a linha de chegada.

Então por que conquistar algo que nem ao menos se sabe o que é? Sucesso - algo que é um mito pessoal, individual.

Entretanto, devido ao sistema em que estamos envolvido, o sucesso se tornou só mais um produto midiático. Ou seja, a todo momento e em qualquer lugar que se vai, sempre, e digo sempre, nos é passado uma e somente uma ideia de Sucesso. Aquele em que você, cidadão de qualquer país do globo, deverá trabalhar arduamente durante muitos anos de sua vida para acumular capital, se aposentar, constituir família e passar a genética do consumidor para frente. Pois bem, tudo se resume a comprar, comprar e comprar…

A mídia expõe que você só será feliz rico, que só será feliz se tiver um certo produto. A própria felicidade vendida em garrafas. Propagandas, o tempo todo, escancaram que você deve estar em estado de completa felicidade, de eterna satisfação e na realidade não é bem assim que as coisas funcionam.

Também é imposto a você que deve trabalhar. Trabalhar até morrer e morrer de se trabalhar. Pois essa será a única forma de conseguir dinheiro, seu trabalho não é nada menos que uma pequena engrenagem de consumo que movimenta a grande roda do capitalismo. Não há mais tempo de se viver a vida, de senti-la e experimentar sua essência, é tudo tão rápido e quando dá-se conta, já está tudo acabado.

Então, é iniciado a última fase da vida, a velhice, onde todo o trabalho árduo se deu fruto. O esforço só foi recompensador se por toda sua vida juntou alguma migalha para se aproveitar o final (isso se conquistar o final com uma boa saúde para não ter que se gastar tudo com médicos e remédios). Pra quê esperar tanto para se viver? Por que se atrelar tanto a algo para no final ver tudo sendo tomado pelo beijo do anjo do tempo? Nada neste mundo irá atravessar com você para o outro lado! É preciso aproveitar o tempo que nos é dado, afinal, nunca se sabe quando a mística foice do universo irá te pegar. Viva um pouco e se preocupe menos.

E por fim, a outra ideia que está enraizado em nossa mente e de qualquer outro ser vivo: A perpetuação da espécie. Ou o que comumente é conhecido a nós humanos como “constituir uma família”. Para muitos, isso é sim uma grande realização, porém, a forma como isto é imposto deque toda mulher deve casar, de que temos de ter filhos, ser um cidadão de bem, etc... É grosseiro! Mas desce por nossas goelas com tanta facilidade e naturalidade. A filosofia cristã apascenta a mentalidade de puritanismo e negligencia qualquer outra manifestação de afeto e liberdade. E com isso, inclui-se a ideia de família. Uma luta em que hoje já se tem mostrado o contrário. A felicidade não é inclusa ao se atrelar eternamente com outra. Ela é “compartilhada”.

E muitas pessoas acabam nem conseguindo esse feito. São deixadas à margem disso, “ficam pra titia.” Ninguém roga por elas. Só corroboramos para a sua baixa autoestima e, consequentemente, depressão (quiçá suicídio). Afinal de contas, quem não tem a sua “alma gêmea” não é nada, então o que seríamos se não corpos vazios vagando na eternidade? Mais uma das diversas mentiras que nos são contadas.

É necessário que se rompa com esses estigmas. Cortemos logo, e pela raíz, as mudas da normalização e  padronização da felicidade e do sucesso. O sucesso, como dito antes, é individual. A busca pelo autoconhecimento nos é capaz de revelar quem e o que é necessário para nos preencher. Mas a você, o que é o Sucesso?

O Sucesso pode ser para alguns a conclusão de uma meta de vida, seja ela sair de casa, conseguir um emprego dos sonhos, etc; Pode ser traçar o seu próprio caminho e confiar nas próprias escolhas, sem o medo de que irá falhar; Saber que as coisas irão mudar e estar aberto a essa mudança; Sucesso é imaginar um futuro onde todos respeitam aos outros, aos animais, a própria Terra e ao menos tentar ou mudar, nem que seja um pouco, a mentalidade de alguém - Trazê-las à Evolução (Seja ela Espiritual, Intelectual, etc.). Sucesso - aquilo que sucede; aquilo que se resulta de algo. Sucesso, meta ou consequência da força de vontade? Todos a avistamos de longe, mas são poucos os que a tocam. Seja forte, seja bravo, confie em si mesmo, ache seu próprio sucesso e domine-o. 









Texto de Cris del Mar.



21 de julho de 2020


segunda-feira, 17 de março de 2025

Things Have Changed: Entendendo os significados da música de Bob Dylan


O comentário de Dylan em estar deslocado do mundo, mesmo estando junto a ele - aqui, mas não aqui - se espalha múltiplas vezes em suas canções. Nunca esteve lá desde o começo - Times they are a-changing lançou uma certeza que corria em várias outras canções antigas.

O problema com Times, no entanto, era que a canção mais famosa de Dylan estava fora de sincronia com o resto do álbum, que dizia claramente que os tempos não estavam mudando e que, por exemplo, os horrores da pobreza e exploração rural, ou do racismo e da injustiça, estavam preso na sociedade e nas políticas americanas. 


Então que coisas mudaram? Bem, apenas porque o cantor que antes costumava a se importar, mas agora nem se dá o trabalho de fazer isso.

De fato, foi isso o que Dylan disse abertamente quando ele ganhou o seu Oscar - ele a chamou de uma música que "não anda com rodeios nem faz vista grossa para a natureza humana."

Claro que musicalmente, a partir do desenvolvimento de seu imagético surreal que chegou com o desenvolvimento da instrumentação voltada para o rock no trabalho de Dylan, é possível encontrar mudanças. Mas em termos de natureza humana, do momento em que "Hollies Brown puxa seu gatilho" e "a noite começa a pregar peças quando está tentando ficar quieto" tudo começa a se desmoronar para sempre. Bob tem seus momentos de felicidade em momentos como no interlúdio Country Pie ou em momentos parecidos, mas a sensação que ele deixa em suas obras refletem em como ele é, às vezes se importando e às vezes não.

 Nessas canções, existe uma certa frequência em que o ouvinte se pergunta "O que está acontecendo?" Seja dentro ou fora da música. Mas, se há uma canção onde mais se encontra essa indagação é em "Things Have Changed".


Um homem preocupado
Com uma mente preocupada
Ninguém na minha frente
E ninguém atrás

O verso inicial é o suficiente para guiar o destino da canção, ou melhor, que não se faz ideia de qual direção ela poderá ir. E quando menos se espera, o ouvinte percebe que o cantor está falando sobre uma mulher "bebendo champanhe, com sua pele branca e olhos de assassino."

"Olhos de assassino? O que seriam olhos de assassinos?" Não fica bem claro, já que ela vem de outro mundo. Aqui, o deslocamento é completo. A única certeza é de que há um olhar e pronto.


De pé na forca
Com a cabeça em uma corda
A qualquer momento
Espero que o inferno se espalhe

Neste mundo, as pessoas vêm e vão, falando, mas sem dizer nada. O passado ainda não aconteceu, o futuro foi ontem. Eu sou você, você é ele e ele não é. T.S. Elliot chuta seu verso para o subconsciente de Dylan mais uma vez: 

Ruas que seguem como um argumento tedioso

De intenção insidiosa

Para levá-lo a uma pergunta esmagadora

Oh, não pergunte "O que é?"

Vamos fazer nossa visita

Na sala as mulheres vêm e vão

Falando de Michelangelo.

A névoa amarela que esfrega suas costas nas vidraças,

A fumaça amarela que esfrega seu focinho nas vidraças,

Lambe suas línguas nos cantos da noite,

Permanece sobre as poças que ficaram nos ralos


É claro que ele deveria estar em Hollywood, fazendo aulas de dança, vestindo-se de Drag. Ele deveria, pois aqui já não resta nada para se provar. O problema é que em todo lugar, não há nada a se provar, a névoa amarela envolve tudo.

Sua voz está cansada e o acompanhamento controlado e bem ensaiado, o pulso moderado, não tem nenhuma tentativa de se tornar uma performance virtuosa, não há nenhuma mudança inesperada de acordes, porque não são os músicos individuais que fazem o ponto - o ponto é a situação, aquele mundo que deu errado. Naquele mundo, é possível se apegar a constância da música, porque não há outra constância. 


Sinto como se estivesse me apaixonando

Pela primeira mulher que me aparecer

Colocando-a em um carrinho de mão

E a empurrando pela rua

(Onde mais se colocaria uma mulher de olhos assassinos enquanto uma névoa amarela se enrola ao redor e as classes cultas falam sem dizer nada?)


E quando o ouvinte já se acostuma com a estranheza e começa a criar clareza com o que Dylan diz, ele subitamente...

Sr. Jinx e Sra. Lucy pularam no lago

Eu não estou tão ansioso para cometer um erro

Sr. Jinx era um personagem do desenho Pixie e Dixie. Hoje, o Sr. Jinx está disponível em diversos merchandisings. Talvez fosse um momento passageiro do personagem de desenho animado, ou talvez seja uma reflexão, para mostrar que ele também não é real. Exceto que não há distinção entre real e irreal.

E a música continua, usando sua rotina de três acordes com acompanhamento simples. O cantor não fica animado. Existe um continuum, mas continua não fazendo nenhum sentido. 


Link para a música Things Have Changed.

Link para o momento em que Bob Dylan ganha um Oscar.




Fonte: Things Have Changed: The meanings behind the Bob Dylan's song

Traduzido por: Cris del Mar

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

SARA de Bob Dylan - Perdoe a minha desconfiança

 

Bob Dylan já escreveu dezenas de canções de amor ao longo de sua carreira, algumas famosas como "Don't Think Twice, It's All Right", "One of Us Must Know", que adotam uma abordagem mais resignada e filosófica de um relacionamento fracassado. Outros, como "Girl from the North Country" ou "Boots of Spanish Leather", que levam para uma abordagem mais romântica, ainda que distanciada. Há aquelas, mesmo que poucas, como "It Ain't Me" ou "Just Like a Woman", que retratam uma rejeição. Durante seus anos de "retiro doméstico", ele compôs canções de devoção mais diretas, como "The Man in Me", "If Not For You" ou "Lay, Lady Lay". Por conta de sua fama e, consequentemente (ainda que fosse altamente relutante), pelo status de sua celebridade, muitos comentaristas tentaram associar suas canções aos seus relacionamentos mais conhecidos. Então se falamos de "Girl from the North Country", associamos a Echo Helstrom, sua "paixonite" de adolescência; "Boots of Spanish Leather" a sua namorada do início dos anos 60, Suze Rotolo (a mesma que aparece na capa de The Freewheelin' Bob Dylan); e outras inúmeras canções que ele compôs durante os anos de 1964-66 são sobre Joan Baez ou Sara Lownds - com quem ele se casou secretamente em Novembro de 1965. Dylan, que guarda sua vida privada de forma tão cautelosa, nunca gostou com que associassem as suas músicas com significados particulares, muito menos admitir que suas canções foram escritas para pessoas específicas.


(Bob Dylan em ensaio de fotos para a capa do álbum Desire, 1974)



Até no ciclo das canções do álbum Blood on the Tracks, ainda que escritas na época em que seu casamento com a Sara estivesse claramente em apuros, esconde uma mensagem de ambiguidade. Em Chronicles, Dylan afirma (duvidosamente) que aquele álbum não era sobre seu casamento, mas baseado em uma coleção de contos de Anton Tchekhov. Não é de se surpreender que um artista como ele, cujas obras e pronunciamentos públicos são analisadas meticulosamente, tente esconder detalhes reais de sua vida privada. Além disso, canções como "Boots of Spanish Leather", embora possam ter sido "inspiradas" em alguma mulher em particular, não a menciona pelo nome, portanto, podem ser associadas aos ouvintes pelos seus próprios relacionamentos e experiências. No entanto, quando Dylan lançou Sara, a última faixa do álbum Desire, pela primeira (e única) vez ele pareceu não deixar dúvidas aos ouvintes sobre para quem era a música. Todavia, sua afirmação subsequente em uma entrevista de que a música era dirigida à Sara bíblica, esposa do patriarca judeu Abraão, foi bastante não convincente, para dizer o mínimo. A canção foi, talvez por sua natureza intensamente pessoal, nunca mais performada por ele depois de 1976. Além da abordagem jazzística de Barb Jungr, também atraiu alguns covers, muitos deles em versões em Espanhol ou em Italiano.


(Bob e Sara Dylan em Woodstock, 1968 - Foto de Elliot Landy)



Sara é claramente uma canção autobiográfica. É um apelo muito comovente e desesperado, que se concentra na época tenra e feliz de seu relacionamento quando seus filhos eram muito pequenos. Não há nenhuma menção a um conflito matrimonial. Mas a música é tão obviamente sobre a própria vida de Dylan que a falta de subterfúgios ou ambiguidade é impressionante por si só. Desire é um álbum com canções onde cada uma delas são concebidas como pequenos "filmes" de vários gêneros. "Romance in Durango", "One More Cup of Coffee" e "Isis" são todas canções com temáticas de 'Westerns' mexicanos. "Joey" é um filme de máfia piegas. "Hurricane" é uma história corajosa e antirracista de "consciência social", enquanto "Mozambique" e "Black Diamond Bay" são contos cômicos ambientados em lugares "exôticos". Analisando por este contexto, "Sara" pode ser vista como um filme biográfico muito romantizado, onde consiste em diversas cenas estilizadas e felizes de um passado imaginado. A canção é descaradamente nostálgica e sentimental e é claramente pensada para "puxar as cordas do coração" de sua ex-esposa, para que ela o perdoe e volte com ele. 


(Bob Dylan em Rolling Thunder Revue Tour, 1974)



A canção também se difere da maioria dos trabalhos de Dylan por não ser tão complexa de se interpretar. Os seis versos iniciais consistem em cenas em tons de sépia de ocasiões felizes de um passado, apresentados para o ouvinte de forma tão clara e imagético evocativo. Cada verso é seguido por um refrão lamentoso e variável, onde Bob idealiza Sara e implora que ela retorne para ele. Dylan enuncia com bastante clareza, entregando uma performance verdadeiramente apaixonada. Seus solos de gaita são essencialmente eficazes. O tom geral da música, no entanto, é de profunda tristeza. De acordo com o biógrafo de Dylan, Howard Sounes, ele realmente pediu para Sara estar presente na sessão de gravação quando ele lançou a música pela primeira vez. O casal havia se reunido e Sara havia se tornado parte da turnê Rolling Thunder, interpretando o papel principal de Clara em Renaldo and Clara, o filme experimental de Dylan da turnê. Mas a reconciliação não durou e um divórcio confuso se seguiu. Apesar dos apelos sinceros de Bob para Sara, o clima predominante da música sugere que, no fundo, ele já sabia que seu casamento estava condenado. Quaisquer transgressões que ele cometeu (que certamente, na vida real, incluía seus casos com outras mulheres) nunca foram descritas em detalhes. A canção tem um ar de tragédia. O fato do Dylan, sempre bom em "deixar as coisas vagas" (assim como afirma Joan Baez em Diamonds and Rust), ter realmente exposto elementos da sua vida real acrescenta à pungência da música. Seu tom de triste pesar e arrependimento torna-a um verdadeiro arrancador de lágrimas. Mas ele nem sempre deixa claro que ele se considera responsável pelos problemas matrimoniais. 



(Bob e Sara Dylan chegando na Inglaterra, 1969)



A canção se inicia com uma simples, mas evocativa, descrição de uma memória emocional. Dylan está deitado em uma duna, numa época em que ...as crianças eram pequenas e brincavam na praia... Sara aparece por de trás deles ...Você sempre esteve tão perto... ele canta ...e ainda ao alcance... No primeiro refrão ele pergunta a ela ...O que foi que fez você mudar a sua mente?... Esta, é claro, uma pergunta retórica, cuja resposta ele não fornece. Em referência ao interesse de Sara ao Zen Budismo, ao qual Dylan já havia prestado homenagem anteriormente em "Love Minus Zero/ No Limit", ele a chama de ...tão fácil de olhar, tão difícil de definir... Dylan então recorre à sua memória de seus filhos brincando na praia. As descrições são simples, mas muito emotivas ...Eu ainda os vejo brincando com seus baldes na areia/ Eles correm para a água, para encher seus baldes...  Então ele dá um zoom para um close de cena ...Eu ainda vejo as conchas caindo de suas mãos/ Enquanto eles seguem um ao outro de volta para a colina... A imagem das conchas que as crianças recolheram caindo de volta para a areia é realmente comovente. Ela pode ser interpretada como se as crianças já estivessem em um processo de perder algo, mas - em sua inocência - não tivessem consciência de que isso estava acontecendo. Dylan tenta distrai Sara dessa imagem amedrontadora repetindo seu nome várias vezes no refrão, idealizando-a como ...doce anjo virgem... e como uma ...joia radiante, esposa mística... Mas, inevitavelmente, é a imagem ressonante de seus filhos brincando, com a associação da felicidade de sua família que agora está desfeita, que fica no imaginário do ouvinte - e talvez no de Sara - mais presente.


(Bob Dylan em estúdio na gravação de Buckets of Rain de Blood On The Tracks, 1975)



No terceiro verso, Dylan continua a produzir mais flashbacks evocativos, mostrando cenas de felicidade conjugal. Mas agora as imagens do passado vêm espessas e rápidas e estão ainda mais fragmentadas, enquanto ele parece buscar em desespero na sua memória ...Dormindo na floresta perto de uma fogueira à noite... é seguido por ...Bebendo rum branco em um bar em Portugal... então ele retorna com mais imagens sentimentais das crianças, que estão ...brincando de pular carneirinhos e escutando sobre a Branca de Neve... antes de cortar para uma "foto" de Sara ...no mercado em Savannah-la-Mar (um resort na Jamaica). Nas apresentações ao vivo da música, os versos dois a cinco são trocados para ...Você lutou pela minha alma... ele canta  ...e enfrentou as adversidades... E isto é seguido por uma rara auto depreciação ... eu era muito jovem para saber que você estava fazendo o certo... ele diz a ela antes de elogiá-la com termos inequívocos ...Mas você fez isso com a força digna dos deuses... Os novos versos podem não ter o Pathos dos que vieram antes, mas ele suprem um apresso prático para Sara - em particular, por salvá-lo de seu estilo de vida autodestrutivo - o qual antes esses elogios estavam ausentes. A referência de "deuses" dá a Sara poderes divinos, um tema que continuará ao longo da música. O próximo refrão, com sentimentos bastantes prosaicos de ...Sara, Sara, está tudo tão claro que jamais me esqueceria/ Sara, Sara, te amar é algo que eu jamais me arrependeria... é uma faca de dois gumes. Ele admite que ele nunca se arrependeria de amá-la, mas deixa o ouvinte imaginando sobre tantas outras coisas que não são ditas aqui e quais seriam esses "arrependimentos" que ele é incapaz de admitir.


(Contra capa do álbum Desire)



O quarto verso acaba sendo o mais chocante para qualquer fã do Dylan. Na primeira linha ...Eu ainda posso ouvir o som daqueles sinos metodistas... que é algo altamente evocativo, embora um tanto extraordinário. Então, ele segue dizendo ...eu tinha encontrado a cura, e tinha acabado de passar por tudo isso... Aqui Dylan aparece (pelo menos superficialmente) estar sendo demasiado honesto sobre a sua vida pessoal. O verso sugere que ele estava com vício em drogas, a não ser que ele esteja se referindo a um outro tipo de doença desconhecida (possivelmente alguma doença sexualmente transmissível). Mas o impacto disso, de alguma forma, está apagado pela próxima revelação ...Acordado por dias no Chelsea Hotel/ Escrevendo "Sad Eyed Lady of the Lowlands" para você... Aqui, pela primeira e única vez, ele faz referência a uma de suas músicas - e uma música de grande hit em sua carreira. Tudo isso, no entanto, pode ser um mero subterfúgio, de acordo com os músicos que participaram do álbum Blonde On Blonde, Sad Eyed Lady foi composta em estúdio enquanto ele trabalhava no álbum. E embora a famosa e épica balada contenha diversas referências conhecidas sobre Sara (Lowlands pode ser um jogo de palavras para Lownds, que junto com 'magazine husband' - *Marido da revista - faz referência a Hans Lownds, o primeiro marido de Sara que era jornalista), é discutível se a música é inteira "sobre" ela ou se a *Mulher de Olhos-Tristes é uma composição "sobre" todas as amantes de Dylan (ou até pode se referir ao próprio Dylan).


(Capa do álbum Desire)



Nada disso pode ser terrivelmente surpreendente para aqueles que acompanham o trabalho de Dylan. É esperado que ele apresente uma versão colorida e muito imaginativa de seu passado, assim como fez ao aparecer na cena folk, alegando ter saído de casa quando era adolescente e passando vários anos trabalhando em feiras de circos itinerantes. Em Chronicles, muitas dessas memórias são relembradas e parecem ser, no mínimo, exageradas. Mas ao fazer tal declaração sobre uma de suas músicas tão lendárias, Dylan aparenta estar "deixando uma parte de si" no verso ao revelar publicamente um detalhe tão específico, que normalmente ele guardaria a sete chaves para si mesmo. É, certamente, um detalhe impressionante para seus fãs, mesmo se a própria Sara acreditou ou não. No refrão que se segue, Dylan a tranquiliza dizendo que ...onde quer que viajamos, nunca estaremos separados... sugerindo que ele está se preparando para um futuro no qual eles realmente estarão separados. 


(A praia de Lilly Pond Lane)



Dylan continua o seu processo de mitologização ...Como eu te conheci?... Ele pergunta. Primeiro ele afirma que ...eu não sei... Mas é só mais uma pergunta retórica. Ele então declara orgulhosamente ...Um mensageiro enviado a mim em uma tempestade tropical... o que parece estar se referindo a Mercúrio, o Mensageiro Romano. Seguindo por outra imagem idealizada de Sara ...Você estava lá no inverno, o luar brilhava sob a neve/ E em Lilly Pond Lane, quando o clima se amornava... Lilly Pond Lane é uma praia localizada em East Hampton, em Long Island, no estado de Nova Iorque. Presumivelmente, esta é a localização da praia que aparece na música. Dylan agora parece estar sugerindo que a união deles foi algum tipo de processo místico, decretado pelos "deuses". Isso é amplificado pela bonita aliteratura da primeira linha do próximo refrão ...Sara, Sara/ Esfinge de escorpião em um vestido de algodão... outro tributo a sua mística e, aparentemente, confusa personalidade. Então, tendo construído um "status divino" para a sua esposa, ele prossegue para entregar, pela primeira vez, algum tipo de confissão de sua própria responsabilidade pelo o que aconteceu ...você deve me perdoar por minha desconfiança... 


(Uma Ninfa mirando seu arco para um jovem - Kauffman, Angelika - 1780)



Após uma pausa pungente de um solo de gaita, o verso final começa com o elegíaco de partir corações ...Agora a praia está deserta, exceto por algumas algas/ E um pedaço de um velho navio que jaz na costa... Tanto a praia vazia e o navio quebrado parecem simbolizar o estado do casamento deles. Depois ele faz mais elogios à Sara ...Você sempre respondeu quando precisei de ajuda/ Você me deu um mapa e uma chave para sua porta...  Sara é ainda mais "deificada" como uma ...ninfa glamorosa com uma flecha e um arco... O que parece ser uma referência a uma famosa pintura da artista suíça do século XVIII Angelika Kauffman, na qual uma ninfa mira seu arco em um pastor usando uma das flechas do Cupido. Dylan claramente espera que Sara magicamente revitalize seu relacionamento atirando uma dessas "flechas do amor".


(Bob Dylan performando em Houston, Texas, durante a turnê do Rolling Thunder Revue, Maio de 1976)


No entanto, parece improvável que isso realmente aconteça. Apesar dos apelos de Dylan, a magia em seu relacionamento já havia acabado. A música, que conclui com uma melodia de gaita bastante lamentosa, é trágica ao invés de edificante. Há uma forte sensação de que Dylan não está realmente lidando com os problemas do casamento. Mas na verdade, ele os está evitando ao não admitir nenhuma culpabilidade de sua parte, com exceção de sua própria "indignidade"; cuja confissão é corajosa, mas vaga. Os elementos trágicos que ocorreram dentro de seu casamento parecem não ter sido ditos. Infelizmente, a sua apaixonante e metafísica poesia e a sua súplica por perdão não desejarão que os problemas não existam mais. As canções de Dylan são frequentemente mal compreendidas por aqueles que não entendem o fato de que muito do que ele canta é expresso pela voz de um narrador, que é um personagem fictício. Então, os sentimentos expressos em suas canções não são necessariamente os do próprio Dylan. Em Sara, uma música que parece, a princípio - por uma vez, deixar de lado essas "máscaras", finalmente parece que ele ainda está cantando pela voz do narrador - neste caso, um personagem fictício chamado "Bob Dylan", que aqui se dirige à mulher que ele injustiçou como uma "deusa". Ao fazer isso, ele cria a sensação de desejo desesperado misturado com nostalgia chorosa, dando para a canção um grande poder emocional.



(Bob Dylan tocando na turnê Rolling Thunder Revue,1976)


Texto traduzido por: Cris del Mar
Texto de: Chris Gregory
Fonte: Sara - Forgive me my unworthiness


sexta-feira, 10 de março de 2023

Exercício de autocrítica


Eu queria que você fizesse um exercício muito simples. Tudo que precisa fazer, se estiver confortável com isso, é ficar diante de um espelho. Tente se despir - se possível - e olhe fixamente para a imagem refletida na sua frente. É um exercício de autocrítica ou autoaceitação, não sei ao certo. Mas a ideia é ficar se encarando sem pensar em nada. Você apenas se olha e encara a imagem à sua frente sem pensar em nada, sem ter opinião do que você está vendo. Somente observe-se; Se veja; Atente-se em como o olho se mexe pra lá e pra cá, ouça sua respiração, observe os músculos se contraindo para buscar o ar e expulsá-lo. Atente-se em cada movimento, cada formato, cada cor que a luz também reflete, cada textura, sombreado, tudo. A imagem como um todo, como ela realmente é. Se você quiser, também pode se encostar, se sentir com esse toque. Entender essas formas e ângulos. 


A partir de então, quando você começa aceitar o que está vendo, quando assume: “Tá, isso aqui é real!” Comece a usar palavras para verbalizar tudo isso. Pode usar palavras feias e pejorativas, ou podem ser palavras neutras, palavras qualitativas ou positivas, mas apenas palavras. E tente descrever o que você vê. Descreva toda essa composição usando os adjetivos que citei - formatos, ângulos, etc. -, toda essa coloração que surge na sua frente. 


Você começa a se observar e enxerga isso. Você busca verbalizar e acaba verbalizando isso. No final, tente aceitar todo o significado que essas palavras trazem, filtrando quais te representam mais, quais delas você quer levar pra você. Mas entenda, que você é tudo isso! Que você não é só a parte bela e a parte feia, ou a parte positiva e negativa! Você é um aglomerado disso tudo. Um aglomerado. E essa composição peculiar que faz cada ser humano ser belo - no sentido poético. Você não é uma coisa só, mas várias. Então tente levar consigo as palavras que vão te fortalecer, que vão te abraçar e engrandecer, que continuará consigo por toda sua vida, como um mantra, e dirá “Eu posso ser tudo isso, mas sei que sou e serei capaz de ser muito mais!”

terça-feira, 18 de maio de 2021

Poeta da Guerrilha

 

A maioria das pessoas quando veem um poeta pensam logo em um ser amoroso, lúdico, que vive com a cabeça entre as nuvens. E de fato estamos. Mas há também de lembrar dos outros poetas. Aqueles que enxergam além da verdade. A poesia de guerrilha. Que apontam o dedo na cara e ainda discute. Aqueles que olham pra vida e ainda mais. Muito mais. Que enxergam a beleza na própria melancolia e tornam o caos do mundo mais belo. Devem lembrar que existe, não o poeta, mas a própria poesia. Que habita nele e em nós. Que habita em qualquer lugar. E o papel dele é informar, informar que existe essa beleza na vida. Informar que não só o amor rima com dor, mas quiçá o pavor. O pavor de viver, de se arrastar a cada dia que passa. Levantar-se e correr pra mais uma rotina de labuta. Esse poeta não descansa, pois ele respira e destila palavras. Tenta capturá-las como uma criança que tenta estourar bolhas de sabão. Esse tipo de poeta guerreia consigo mesmo. “Senta-te, velho sarnento! E vá escrever.” É isso que querem faça. Mas a arte vem de forma espontânea e se ele não se alimentar não poderá criá-la. Seja de pão ou seja de álcool, o poeta arranja uma forma de sobreviver. Como Rimbaud saindo do próprio inferno. Sua luta diária não se limita ao horizonte. Vai para todos nós. Que possamos enxergar a vida de forma mais leve e bela. E quem sabe pegar emprestado os teus olhos e ver, nem que seja por um curto período de tempo, o mundo com uma perspectiva completamente diferente.